sábado, 17 de setembro de 2011

Sekhmet


       As emoções andam por vias diferentes da razão. Você não precisa de muita explicação real para entrar no frenesi de uma emoção. O que te leva a ficar verdadeiramente alegre pode não passar de fantasia sua. Com a raiva não é diferente. Sem controle intencional, ela te domina, te cega.
       Sekhmet, agressiva Deusa Egípcia da guerra é bom exemplo disso. Ela vem cumprir uma missão que sequer era sua: matar os seres humanos que desobedeciam Rá. Porém, após passar pela porta da ira, não soube onde parar. Cegou-se e matou quase toda a humanidade, parando apenas após ser embebedada com uma mistura semelhante a sangue.
       A raiva já foi considerada uma emoção que precisava ser evitada e reprimida. A pessoa de melhor índole era aquela que não sentia (ou não demonstrava) este sentimento. Depois, sua importância foi reiterada, e ela passou a ter seu lugar ao sol, como emoção útil nas defesas. Uma pessoa sem raiva é considerada fácil de ser passada pra trás, ingênua, permissiva.
       Mas é uma emoção, e tem que ser usada com parcimônia. As emoções devem ser usadas em doses, aliadas às nossas outras funções, como a razão e a percepção. Se nos deixamos levar por um excesso de alegria, ou se nos permitimos um estado profundo de tristeza, não agimos na integridade de nós mesmas. As emoções, quando nos tomam, podem nos deixar em certo estado de torpor. Com a raiva é o mesmo.
       Qual dose é essa de raiva, que me permite ser justa comigo e com a situação real? Como posso não me tornar, nem uma ranzinza, que cospe veneno por qualquer coisa, e nem uma vítima passiva?
       Em primeiro lugar, deve-se fazer a pergunta que Sekhmet não se fez: “essa guerra é minha?”
       Me parece muito óbvio que, de repente, aflore um bisão bufante de dentro da pessoa mais calma, que assumiu um trabalho hercúleo, que bem pode ser dividido por mais pessoas. Ou aquela pessoa amarga que passou a vida fazendo um trabalho, tendo aptidão para outro. Ou mesmo aquela pessoa que não perde a chance de menosprezar o outro por jamais ter descoberto pra quê serve a própria vida.  Pode parecer simples e óbvio, mas esconde uma das maiores dificuldades da vida, e um dos maiores segredos da felicidade também: Saber qual é sua função no mundo e, principalmente, qual NÃO é.
       Em segundo lugar, devemos olhar bem pra a raiva que sentimos, de onde vem, para onde vai. Não adianta odiar a vida por causa do chefe, e descontar na mulher. Nem viver com raiva de si mesmo por  ter que carregar a própria história. Sempre que uma raiva esquenta, devemos consultá-la, pois o que a dispara nem sempre é o que a gerou. Muitas vezes um evento acontece na nossa vida e reagimos à ele com a raiva de eventos anteriores nunca esquecidos.
       Depois de olhar bem para elas, algo deve ser feito. Algumas precisam de um descanso, de um perdão real, o que inclui não se pensar mais nisso. Outras precisam ser mais bem trabalhadas, precisam de ações da nossa parte.
       Existem momentos em que precisamos agir com a raiva, mas esses são raros. Quando for hora de usá-la, ela vai se mostrar útil, não precisamos ficar cultivando, alimentando, fortificando  para essa tal hora. Se fazemos isso, temos que fortificar também a jaula interna para guardá-la, e isso é muito penoso. A raiva é mais um termômetro do que uma ferramenta. É como uma febre, um aviso de que algo vai mal.
       Geralmente nos irritamos quando somos incapazes de reagir de outra forma, quando as outra saídas se esgotam. É uma grande sensação de incapacidade, a raiva. Incapacidade de lidar, de aceitar, de compreender. De quê adianta, então, se entregar à cegueira de Sekhmet, depredar o mundo, magoar os coleguinhas, invocar raios e trovões e depois, mais calma, culpar a raiva megera pela devastação deixada? Ela vem como um alerta, devemos deixar que sente se conosco. Mas permitir que ela encarne o nosso corpo inteiro, é perigoso. É uma ótima conselheira, mas dirige muito mal.
       Depois de embebedada, Sekhmet retorna sob o aspecto de Hathor, Deusa solar da Alegria e da paixão. Assim como sentimos o calor da raiva e do amor no mesmo lugar no corpo, é a mesma Deusa que representa estas emoções duais. As duas faces da mesma Deusa nos lembra que é responsabilidade nossa controlar o dial do nosso estado de humor. Não que devamos estar sempre de bem com a vida, pois para isso teremos que mentir para nós mesmas boa parte do tempo, mas temos a opção de deixar Sekhmet seguir seu caminho com fluidez e respeito, sem tanto apego à Deusa raivosa, que passa uma falsa impressão de segurança. Desta forma, as emoções se tornam o tempero da nossa vida e não o alimento único.

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