terça-feira, 13 de setembro de 2011

Religare



- Como a religião interfere nas suas decisões pessoais?

As religiões buscam explicar as questões humanas mais profundas, como nossa finitude, a presença ou não de alma, de onde viemos e para onde vamos, se existe e como é o Ser Superior... Além de, geralmente, vir acompanhada de uma filosofia que norteia nossos valores. Desta forma, o pensamento religioso afeta minha vida em basicamente tudo que esteja ligado às questões existenciais e morais, permeando minhas condutas nas horas de crise, na minha relação com o próximo, na relação comigo, e na minha postura geral diante da vida.

- O que é o conceito de Deus pra você?

Acredito que Deus seja infinitamente maior do que minha capacidade de conceituar. Do meu ponto de vista, esta força é mais fácil de ser sentida do que pensada. No entanto, como nunca estamos separados do simbólico, tenderemos sempre a conceituar Deus de acordo com nossa crença particular, nossa história, cultura, etc. No meu caso, chamo essa força criadora de Deusa, não por atribuir genitálias à divindade, mas por acreditar que a Mãe é o símbolo melhor para representar uma força geradora, que ampara mas ensina. Para mim esta força se comunica conosco por via direta, está sempre de dentro pra fora, não vem de cima. A "palavra de Deus" pra mim é o próprio fenômeno da realidade que, se não servisse pra nos ensinar, não insistiria em seguir certos padrões e repetir algumas lições até que aprendamos... A natureza é minha "bíblia", meu templo, de onde tiro ensinamentos valiosos e para onde vou quando preciso de paz e comunhão.

- O que você pensa sobre a relação Deus e Igreja?

         Deus não precisa de Igreja, é uma necessidade humana. Ao meu ver, estas instituições mais afastam do que aproximam as pessoas de Deus, por retirarem-lhes a autonomia da busca espiritual, hierarquizar o contato com o divino, privilegiar "escolhidos" entre outras questões. Se as idiossincrasias não forem respeitadas, o templo corre o risco de se tornar mais um lugar de padronização moral do que de busca espiritual.

- Você optou por essa religião sozinho ou tem influencia da sua família?

Minha espiritualidade sempre foi cultivada pela minha avó, mas minha escolha religiosa é totalmente separada da minha família.

- Pra você, o que é ser uma pessoa espiritualizada?

É um comprometimento com a evolução pessoal, que resulta em uma incrível capacidade de atuar no aqui-e-agora. São pessoas que conseguem estar espiritualmente presentes no que fazem, que se dão para a existência. A pessoa espiritualizada integra sua criança interior, seu adulto e seu ancião, tem a favor de si todos seus sentidos. São pessoas conectadas com o todo, que celebram os gozos do mundo, mas que sentem a dor do outro como sua.

- Você acha que o ser humano tem a necessidade de ter fé em alguma crença?

No âmbito religioso, tratamos da parte do conhecimento humano que não se pode provar. Ninguém sabe o que vem após a morte e, no entanto, quase todos têm uma opinião formada sobre o que deve ocorrer. Como nunca foi provado nada acerca do além morte, tudo que se fala sobre isso é crença, seja acreditando que haverá algo, seja acreditando que acaba tudo. Na verdade, a maior parte do conhecimento de um indivíduo é baseado na crença pois, sem comprovação direta, só podemos crer no que é dito por terceiros. Crer, então, é mais uma condição do que uma necessidade. A questão é: para onde guiamos nossas crenças? somos felizes com isso? acreditamos mesmo nisso, ou nos enganamos para nos enquadrar em algo? Temos que, constantemente, reavaliar o que cremos. Acreditar e ter fé não é ser cego. Temos que analisar criticamente, e sempre sintonizar a fé com o que sentimos. Como mulher, por exemplo, precisei de uma fé que respeitasse meus ciclos, meus cios, minha futura anciã que cultivo com experiências... pois essa é a sintonia entre o que sou e o que acredito. À muitas pessoas são impostas crenças que vão contra suas verdades íntimas, o que eu considero um estupro à subjetividade, inserindo culpas e contradições no lugar de harmonia.

- A bíblia cristã criou alguns conceitos como pecado, céu e inferno... Qual sua opinião sobre essas explicações?

Sem esses conceitos, o sistema cristão não funcionaria. Na psicologia chamamos de reforço positivo e reforço negativo. É como, num labirinto, dar choque em um lugar e botar um docinho em outro. Tudo isso é feito no sentido de se controlar um comportamento.
Se é colocado que em um lugar está Todo o bem e toda a salvação e em outro está todo mal e toda danação, fica engraçado falar de livre arbítrio pois, Quem quer ir pro inferno? Então eles te dão uma fórmula para não ir para o inferno, que é um guia de comportamento.
Eu acredito em uma realidade muito mais complexa do que esta dividida em dicotomias e vejo relatividade em todo ato humano, não podendo dizer quais atos levariam à uma danação. Pra mim esta suposta "punição", que acredito que minha Deusa faz várias vezes, ela o faz em vida, principalmente quando está de mal humor. Mas não é inferno. É inverno, que testa a gente, é duro de atravessar, mas precede a primavera. É beliscão de mãe, que às vezes faz a gente levantar e fazer o que ela está mandando, e é pro nosso bem, mas estamos com preguiça.

- Qual sua opinião sobre as outras religiões existentes, além da sua?

São pontos de vista, peças de uma mesma coisa. como paisagens, continentes. Devem ser vistas como fontes de sabedoria humana acerca do divino, mas limitadas pelo próprio horizonte de seu ângulo. Estes pontos de vistas deveriam integrar-se para fazer sentido, e não ter conflitos entre si. É como se, na pergunta O que é o Mundo? Os esquimós brigassem com os africanos em defesa de sua tese de "mundo".

- Você acredita que o preconceito religioso é um problema da nossa sociedade? Já sofreu ou conhece alguém que sofreu esse tipo de preconceito?

Com certeza! Tudo anterior à Santa inquisição é tido como primitivo ou tolo.Toda forma religiosa que foge do formato vigente sofre preconceito.

- Você acha que há diferenças entre os termos religião e religiosidades? Quais?

Sim. A religião é a instituição, com seu sistema fixo de valores. Religiosidade é a relação que temos com a religião, que varia para cada individuo.

*Entrevista que respondi à alunos do SIGMA

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