quarta-feira, 22 de maio de 2013

A Palavra





Para alguns, a Bíblia. Para outros o Alcorão. Há ainda os Vedas, hieróglifos egípcios ou a palavra do pastor...  Todos defendem que Deus e seu favoritismo, cochichou Sua Palavra para seu grupo. Não só a palavra! Deus, um moralista que, por vez ou outra, abre uma concessão, faz da nossa vida um Big Brother e nos assiste, punindo e recompensando nossos momentos mais íntimos.
Por discordar deste voyeurismo divino, a ciência parte para outro extremo. Depois de visitar a estratosfera e o núcleo atômico, essa pretensa ferramenta humana afirma não ter visto Deus em nenhum lugar. O status do ser humano passa a ser uma titica de nada ou o “rei da pedra do rei”, dependendo do referencial teórico.
Penso que a “palavra de Deus” é um pouco mais democrática, não é dita na língua mater de ninguém e é acessível para qualquer analfabeto.  Esta é a Natureza, única linguagem divina que consigo aceitar. Não encare como natureza somente o matagal habitado pelo coleguinha Tarzan. Inclui o cosmos, nossa subjetividade e organismo, as ocorrências universais...
O bom desta “palavra” é sua flexibilidade de interpretação e sua incessante dinâmica. É inteiramente compreensível  que existam tantas formas de ver a Natureza quanto seres no mundo. Da mesma forma, sua constante transformação impede seus filhos de se acomodarem de forma perpétua. Daí já podemos tirar valiosos ensinamentos!
O equilíbrio de forças que sustenta o mundo natural nos mostra que este está acima da valoração moral. Não podemos defini-lo como bom ou mau, simplesmente é como é. A vida se alimenta de vida. O estilo predatório dos animais muitas vezes nos horroriza, mesmo que entendamos muito mais deste assunto do que eles. No entanto, um predador do reino animal não estoca seu alimento de forma vertiginosa e frívola. Os bichinhos que são a caça da cadeia alimentar se reproduzem aos baldes, enquanto os caçadores correm mais risco, inclusive de extinção, por ter acasalamentos mais complexos, cuidarem mais tempo de sua pequena ninhada e serem vítimas do canibalismo de machos dominantes enquanto filhotes. Pode parecer que não é fácil ser comida nem comedor, mas é em prol do equilíbrio natural que cada espécie faz esse sacrifício.
Como não poderia deixar de ser polêmico, Deus criou a morte, nosso osso duro de roer. Nós, Homo sapiens sapiens, e nosso “direito adquirido” de saber que ela é inevitável, agonizamos a vida toda aterrorizados com essa certeza. Este é um problema cultural, acredito, e nos impede de perceber sua elegante importância.
Em seu livro As Intermitências da morte, José Saramago narra o inusitado dia em que a morte resolve entrar de greve. Com sua enorme capacidade de nos deixar aflitos, o autor nos faz experimentar o caos de tal acontecimento. A infinidade de pessoas presas a sua carcaça com o corpo físico deteriorado e alto grau de sofrimento, exigindo os cuidados da população jovem faz a Morte ser compreendida em sua finalidade. Além disso, penso que, sem ela, a evolução das espécies estaria seriamente comprometida, visto que é pela sobrevivência que os seres lutam e selecionam suas habilidades. Para quê valeria o esforço e a dedicação para adquirir uma virtude se sempre poderíamos deixar para depois?
Enfim, Deus escreve torto por linhas tortas, não podemos compreendê-lo de todo nem conferir-lhe palavras. O que nos é dito é íntimo, numa posologia individual e esteve sendo dito o tempo todo, mas nosso espírito moco ainda não tinha conseguido ouvir.


Nanna Carolina



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